Continuation-Jose.png


 Newspaper Articles/Columns/Features Written by José Domingos Raffaelli
(Portuguese and English)

(Portuguese)

João Donato traz seu 'Amazonas'

João Donato, um dos mais festejados pianistas compositores e arranjadores brasileiros, é a atração de hoje e amanhã, às 23h, no Mika's Piano Bar, em Ipanema, o novo point musical da cidade, que foi inaugurado quarta-feira com um show da cantora Miúcha.

Para estes shows, Donato será acompanhado por Ney Conceição (baixo) e Vitor Bertrami (bateria), tocando repertório do seu CD "Amazonas" e outros sucessos.

Donato é um dos mais originais e inventivos músicos brasileiros. Seu estilo de piano harmonicamente audacioso, entremeado de acordes e interjeições percussivas de grande efeito rítmico, sempre foi uma referência e exerceu grande influência sobre os pianistas brasileiros. Suas composições, entre as quais "Minha saudade", "Silk stop", "A rã", "Bananeira", "Caminho de casa", "Sambolero" e "Brisa do mar", foram gravadas por artistas nacionais e estrangeiros, incluindo o cantor Chris Montez e os jazzmen Bud Shank, Barney Kessel, Cal Tjader, Dave Pike, Clark Terry, Barry Harris e Enrico Rava.

O pianista viveu 14 anos nos Estados Unidos, onde tocou e gravou com Mongo Santamaria, que influenciou seu gosto pelos ritmos latinos, Chet Baker, Eumir Deodato, Bud Shank e muitos outros. Na volta ao Brasil, fez parcerias com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Abel Silva, Lysias Ênio e Martinho da Vila, entre outros.

Donato festeja uma das melhores fases da sua carreira, que voltou a ter amplo destaque a partir do ano passado com o lançamento do seu songbook e de três CDs, dos quais "Amazonas", editado pela Elephant Records, é um dos melhores da sua discografia.

João Donato vai aquecendo as turbinas para uma temporada no Blue Note, um dos clubes de jazz mais conhecidos de Nova York, em julho próximo. (José Domingos Raffaelli)

 

(English) [Translation by José Sanches Perez]

JOÃO DONATO BRINGS HIS "AMAZONAS"

João Donato, one of the most celebrated Brazilian pianists, composers and arrangers, is the attraction of today and tomorrow at 23 o'clock, at Mika's Piano Bar, in Ipanema, the new musical point of the city that was inaugurated last wednesday with the female singer Miúcha show.

For these shows, Donato will be accompanied by Ney Conceição (bass) and Vitor Bertrami (drums), playing the "Amazonas" CD repertory and other hits.

Donato is one of the most original and inventive Brazilian musicians. His hamonically audacious piano style intermixed with chords and percussive interjections of great rhythmic effects, always was a reference and exerted great influence on Brazilian piano players. His compositions, among them, "Minha Saudade", "Silk Stop", "A Rã", "Bananeira", "Caminho de Casa", "Sambolero" and "Brisa do Mar", were recorded by national and foreign artists, including the singer Chris Montez and the jazzmen Bud Shank, Barney Kessel, Cal Tjader, Dave Pike, Clark Terry, Barry Harris and Enrico Rava.

The piano player lived for 14 years in the USA, where he played and recorded with Mongo Santamaria, who influenced his (Donato's) taste for the latin rhythms, Chet Baker, Eumir Deodato, Bud Shank and many others. On his [way] back to Brazil, he made partnership with Caetano Veloso, Gilberto Gil, Abel Silva, Lysias Ênio, and Martinho da Vila, among others.

Donato celebrates one of the best phases of his career that went back to have large prominence since last year, with the releases of his songbook and 3 CDs; among them "Amazonas"--produced by Elephant Records--is one of the best in his discography.

João Donato is warming up the turbines for a season at Blue Note, one of the most known Jazz Clubs of New York, next July.

(José Domingos Raffaelli)

 

(Portuguese)

Molho que virou essencial

José Domingos Raffaelli

As relações entre o jazz e a música latina vêm de longe, desde as tentativas iniciais de Jelly Roll Morton e Duke Ellington. Todavia, a relação começou a ganhar vulto na década de 40, quando Stan Kenton e, principalmente, Dizzy Gillespie adotaram os ritmos latinos ao incorporarem percussionistas cubanos às suas orquestras.

Foi o incrível Chano Pozo quem incendiou a big band de Gillespie ao mesclar os ritmos cubanos da sua conga aos frenéticos sons bebop de Gillespie, a partir do clássico "Manteca", um marco do jazz latino. Mas, a influência cubana já era palpável e, pouco antes, o compositor e arranjador americano George Russell contribuiu com sua importante obra "Cubana Be/Cubana Bop" para o repertório de Gillespie, cuja première foi apresentada no Carnegie Hall. A partir desses pioneiros, a percussão cubana nunca mais deixou de ser um ingrediente especial no jazz.

Além dos percussionistas, que proliferaram como coelhos, cresceram as orquestras latinas em atividade com alguns jazzmen, como foi o caso do maestro Machito, que gravou com Charlie Parker, Flip Phillips e Howard McGhee. Outro band leader importante foi o compositor e arranjador Chico O'Farrill, ainda em franca atividade, que contribuiu com suas obras para o repertório das orquestras de Gillespie e Charlie Barnet. Por outro lado, o compositor americano Johnny Richards deu bastante munição para Kenton, principalmente com sua suíte "Cuban Fire". O argentino Lalo Schifrin também contribuiu com obras de envergadura para o repertório de Gillespie, incluindo "Gillespiana" e "Tunisian fantasy", baseada no clássico "A night in Tunisia", de Gillespie.

As relações jazz & música cubana se acentuaram a partir de 1977, quando uma caravana musical americana tocou em Havana. Nessa ocasião, Gillespie descobriu Paquito D'Rivera (sax-alto) e Arturo Sandoval (trompete), que mais tarde tocaram na sua orquestra. A partir daí, o mundo do jazz alargou os horizontes dos talentos cubanos, aparecendo os pianistas Gonzalo Rubalcaba, José Maria Vitier, Horacio Durán e uma infinidade de novos nomes. Finalmente, com a invasão cubana na Flórida, a partir do final dos anos 70, uma nova geração de jovens filhos dos exilados cubanos e outros que nasceram em território americano aumentou substancialmente o contingente do jazz latino. Os novatos Tony Concepcion e Barry Rios (trompete), Papo Vasquez (trombone), Ed Calle (sax-tenor), Ed Maina (sax-alto), Nestor Torres (flauta), Michael Orta (piano), Nicky Orta e Julio Hernandez (baixo) e Archie Peña (bateria), entre muitos outros, formam esse contingente da nova geração bastante solicitada para gravações e concertos, injetando o tempero cubano na corrente sangüínea do jazz contemporâneo.

 

(English) [Translation by José Sanches Perez]

THE SAUCE THAT BECAME ESSENTIAL

José Domingos Raffaelli

The relationships between the jazz and the latin music come from [a] long time ago, since Jelly Roll Morton and Duke Ellington's initial experiments. However, the relationship began to increase in the forties, when Stan Kenton and, mainly, Dizzy Gillespie adopted the latin rhythms by incorporating Cuban percussionists to their orchestras.

It was the unbelievable Chano Pozo who burned the Gillespie's big band by mixing the Cuban rhythms of his "conga" to the Gillespie's frenetic bebop sounds, since the classical "Manteca", a mark in latin jazz. But, the Cuban influence was already evident and, a little bit before, American composer and arranger George Russell contributed with his important work "Cubana Be/Cubana Bop" for the Gillespie repertory, whose "première" was showed at Carnegie Hall. From these pionners, the Cuban percussion never stopped being a special ingredient to jazz.

Beyond the percussionist, who proliferated like rabbits, also the active latin orchestras increased with some jazzmen, as the case of maestro Machito, who recorded with Charlie Parker, Flip Phillips and Howard McGhee. Another important band-leader was the composer/arranger Chico O'Farril, until today in franc activity, who contributed with his works for Gillespie and Charlie Barnet orchestras' repertory. On the other side, the American composer Johnny Richards gave a lot of ammunition for Kenton, mainly with his "suite" "Cuban Fire". Argentinian Lalo Schifrin also contributed with hard works for the Gillespie repertory, including "Gillespiana" and "Tunisian Fantasy", based on classical Gillespie tune "A Night In Tunisia".

The relationships between jazz and Cuban music became more frequent since 1977, when an American musical caravan played at Havana. On this occasion, Gillespie found out Paquito D'Rivera (alto sax) and Arturo Sandoval (trumpet), who later would play in his orchestra. From this time, the jazz world enlarged the Cuban talents horizons, emerging the piano players Gonzalo Rubalcaba, José Maria Vitier, Horacio Durán and an infinity of new names. Finally, with the Cuban invasion of Florida since the seventies, a new generation of Cuban exiled' young sons and others that were born in the American territory increased (substancially) the latin jazz contingent. The beginners Tony Conception and Barry Rios (trumpet), Papo Vasquez (trombone), Ed Calle (tenor sax), Ed Maina (alto sax), Nestor Torres (flute), Michael Orta (piano), Nicky Orta and Julio Hernandez (bass) and Archie Peña (drums), among many others, form this contingent of the new generation, [were] very solicited for record sessions and concerts, injecting the Cuban spice into contemporary jazz veins.

 


victor.jpg
Victor Assis Brasil

 

(Portuguese) [No English Translation available]

Publicada em: 17/04/2001 às 17:56

Batida do Jazz

A saudade imorredoura do insubstituível Victor Assis Brasil

José Domingos Raffaelli

Há 20 anos, precisamente em 14 de abril de 1981, faleceu o saxofonista Victor Assis Brasil, cuja carreira foi um capítulo especial e memorável na história da música instrumental em nosso país. Batalhador incansável, lutou obstinadamente pela música na qual acreditava, tornando-se sinônimo de jazz em nossa terra, sem compromissos com esquemas ou modismos. Seu úncio compromisso foi a honestida de propósitos ao público fiel que prestigiou sua passagem pela nossa cena musical calcada na indômita coragem de viver profissionalmente tocando jazz.

Com seu prematuro desaparecimento, após semanas de intensa batalha contra o inevitável, encerrou-se a mais importante carreira da área jazzística nacional. Ele não parou nunca, aprimorando-se a cada dia, dedicando-se de corpo e alma à composição e aos seus instrumentos, voltado exclusivamente para expandir seus horizontes. Nunca dava-se por satisfeito, sempre buscando e vislumbrando novas possibilidades. Foi um pesquisador insaciável e um perfeccionista insatisfeito. Tinha consciência do seu valor, porém nunca foi convencido, considerando que ainda tinha muito a aprender, evidência aparente em todo grande músico. Modesto, simpático, prestativo, sempre disposto a prestigiar e incentivar os novos valores, apoiou muitos jovens músicos que se tornaram conhecidos, inclusive internacionalmente. Quantos dele receberam a primeira e real oportunidade ou um grande impulso para se projetarem ? Entre muitos outros, Helio Delmiro, Claudio Roditi, Ion Muniz, Fernando Martins, Claudio Caribé, Marcio Montarroyos, Paulo Lajão, Aloísio Aguiar, Lula Nascimento e Alberto Farah. .

A vocação jazzística de Victor nasceu quando era menino, imitando com uma gaitinha de boca os solos que ouvia em discos, logo passando para o sax-alto, desenvolvendo rapidamente suas aptidões. Enquanto seu talento era atraído para o jazz, seu irmão gêmeo, o pianista João Carlos, orientou sua carreira para a música clássica. Victor dava atenção a todas as formas musicais, tendo em sua bagagem a autoria de algumas composições clássicas, de suítes para quarteto de cordas à obra ambiciosa intitulada "Suíte Para Sax-soprano e Cordas", em cuja première, na Sala Cecília Meireles, em 1976, ele apresentou-se com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Versátil e sumamente inventivo, ele também compôs a trilha da novela "O Grito". Mesmo seguindo carreiras em direções opostas, Victor e João Carlos sempre foram muito unidos. Querido por todos, Victor nunca impôs suas idéias, expondo-as com naturalidade. .

A biografia de Victor é conhecida. Ele começou tocando nas domingueiras do extinto Clube de Jazz & Bossa, em 1965, onde foi ouvido pelo pianista austríaco Friedrich Gulda, que o convidou a participar do concurso que ele promoveria no ano seguinte, em Viena. Aos 21 anos, Victor partir para Viena, um desafio que a confiança em seus recursos superou a inexperiência internacional, alcançando um honroso 3º lugar na catgeoria de saxofonistas. O vencedor foi o internacionalemnte conhecido Eddie Daniels, atualmente dedicado exclusivamente ao clarinete, e no corpo de jurados estavam J. J. Johnson, Cannonball Adderley, Joe Zawinul e o próprio Gulda. Logo a seguir, Victor foi premiado como o melhor solista do Festival de Jazz de Berlim.

As qualidades de Victor foram foram exaltadas pelo crítico Leonard Feather, ao ouví-lo no I Festival de Jazz de São Paulo, em 1978. Um ano antes, o baterista Art Blakey convidou-o a tocar no seu famoso conjunto Jazz Messengers, mas foi declinado a recusar por razões alheias à sua vontade. Em 1979, tocou no Festival de Jazz de Monterey, ao lado de Duzzy Gillespie, Red Mitchell, Albert Mangelsdorff e outros. Wm 1980, participou do Rio Jazz Monterey Festival, ao lado de Clark Terry, Slide Hampton, Richie Cole e Jeff Gardner.

Victor tocou pelo Brasil afora. Sua filosofia era procurar tocar sempre melhor. "É difícil fazer música séria no Brasil", dizia ele. "O jazz no Brasil é pouco conhecido porque sua divulgação é precária. Se os jovens tivessem tivessem acesso ao jazz, como têm a outros gêneros, pode estar certo de que gostarão".

A discografia de Victor é extensa, se conderarmos a raridade dos discos de jazz gravados no Brasil. Sua estréia em estúdios, aos 20 anos, ocorreu em"Desenhos" (Forma). Seguiu-se o excelente "Trajeto" (Equipe), com formações de trio a big band. Seu projeto seguinte foi o álbum "Victor Assis Brasil Toca Antonio Carlos Jobim" (Quartin, de 1970, reeditado pela Continental em 1975), seguido por "Esperanto" (Tapecar, da mesma sessão do anterior, onde pela primeira vez gravou tocando sax-soprano). Depois, em 1974, foi a vez de "Victor Assis Brasil Ao Vivo no Teatro da Galeria" (CID). Na fase final de sua carreira, em 1979, levado por este colunista à EMI-Odeon, gravou seus dois últimos discos, as obras-primas "Victor Assis Brasil Quinteto" (lançado nos Estados Unidos pela Inner City, na Europa pela Telefunken alemã e no Japão pelo selo Skyline). Ainda houve um lançamento póstumo, pela Imagem, o CD "Luiz Eça & Victor Assis Brasil no Museu de Arte Moderna".

Compositor prolífico, escreveu cerca de 200 peças, a maioria inéditas. Das suas obras, apreciava particularmente "Balada Pra Nadia", que escreveu sob forte impacto emocional. Seu maior objetivo era tocar seriamente. "Você deve respeitar a música que toca. Seja sincero, não importa o que toque. O essencial é que venha do coração. Sem o verdadeiro feeling, a música se deteriora".

Victor jamais tocou música na qual não tinha fé. Isso explica porque evitou os contextos comerciais. Seus princípios básicos permaneceram até o fim, um fim que - lamentavelmente - chegou cedo demais. Muito moço para deixar-nos, mas foi inevitável e o imponderável prevaleceu. O destino assim o quis.

Victor foi um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos. Tinha ainda muito a realizar, muito a oferecer, muitos projetos idealizados. Resta-nos o consolo da sua obra gravada. Uma obra inspirada, criativa e, acima de tudp, musicalmente honesta.  Victor Assis Brasil deixou um grande vazio que não foi e ificilmente será preenchido, além de uma imensa saudade que não foi e não será amenizada no coração de todos os que tiveram a felicidade de conhecê-lo.


 

louis1.jpg
Louis Armstrong

(Portuguese) [No English Translation available]

Publicada em: 01/08/2001 às 00:00

Batida do Jazz

Centenário de nascimento de Louis Armstrong

José Domingos Raffaelli

Em 5 de agosto de 2001, em cerimônia oficial, o prefeito de Nova Orleans deu o nome Louis Armstrong International Airport ao aeroporto local, encerrando as festividades do centenário de nascimento de um dos filhos mais ilustres da cidade. Entre muitas homenagens, houve uma série de concertos em Nova Orleans, Nova York, Chicago, Memphis e Los Angeles. A Sony Music americana reeditou todos os CDs de Armstrong para a Columbia e a Universal lançou "The ultimate collection", uma caixa de 3 CDs com o melhor das gravações de Armstrong para a Verve.

"O jazz e eu nascemos juntos e crescemos um ao lado do outro" - quanta verdade existe nesta afirmativa de Daniel Louis Armstrong, ao iniciar sua autobiografia "My life - New Orleans". Trompetista, cantor, showman, ator e entertainer de grande personalidade, Armstrong foi um dos primeiros músicos de jazz a projetar-se mundialmente. Ele exerceu incalculável influência sobre os demais músicos e cantores. O comando instrumental, a segurança, a inventividade da sua execução, as linhas melódicas improvisadas que ultrapassaram os limites impostos aos solistas, a sonoridade expressiva, além da suprema facilidade em alcançar os registros extremos do instrumento para os padrões dos anos 20, revolucionaram o jazz.

A data de nascimento de Louis Armstrong que constava das enciclopédias era 4 de julho de 1900, mas ao descobrirem sua certidão de nascimento, há alguns anos, descobrirem que foi em 5 de agosto de 1971. Especulou-se que o próprio Armstrong divulgou ter nascido em 4 de julho para associarem seu nome à data da independência americana. Nascido e criado num bairro pobre de Nova Orleans, ninguém poderia vaticinar que aquele menino venceria na vida, muito menos tornar-se milionário e mundialmente famoso. Tudo mudou quando ele tinha 13 anos, ao fazer alguns disparos de revólver nos festejos de rua pela passagem do ano novo. Por essa atitude inconseqüente, foi recolhido a um reformatório, mas iria mudar sua vida. Começou a tocar cornet na bandinha da instituição, revelando um natural dom musical. Foi quando recebeu o apelido Satchmouth ou Satchelmouth, depois abreviado para Satchmo (boca de sapo), devido às proporções gigantescas de sua boca.

Deixando o reformatório, trabalhou numa leiteria e vendeu jornais, mas continuou a tocar em bandas de rua. Aos 16 anos, Bunk Johnson e King Oliver eram seus ídolos. "Oliver estava muito adiante dos outros e eu ia ouví-lo onde tocasse" - escreveu Armstrong. Seus progressos foram rápidos e logo tocou nas bandas de Joe Lindsay e Kid Ory. Seu primeiro casamento, aos 16 anos, não deu certo. Divorciou-se e aos 21 anos recebeu o grande impulso da sua carreira quando King Oliver o chamou para tocar na sua Creole Jazz Band como segundo trompete. Na banda de Oliver conheceu a pianista Lil Hardin, com quem se casou e aprendeu teoria musical. Com Oliver, gravou seu primeiro solo em "Chimes Blues", mas foi atuar com a Orquestra de Fletcher Henderson, em 1924, com a qual gravou alguns solos promissores. Nesse período também gravou com as cantoras de blues Bessie Smith e Ma Raney. Deixando Henderson, tocou no octeto de Lil Hardin, revelando seus dotes de showman. "A presença de espírito e notável senso de humor de Louis originavam tiradas engraçadas na hora, arrancando gargalhadas do público" - escreveu Lil. Incentivado por ela, Armstrong formou o conjunto Hot Five, começando sua trajetória de grande inovador, gravando discos fundamentais em 1925/26. Sua influência nessas gravações sedimentou seu estilo original, emancipando o improvisador em termos de liberdade melódico-rítmica e ampliando a extensão dos solos, até então confinados quase exclusivamente a passagens de 8 ou 12 compassos, ou simplesmnete um break. Muito mais do que desbravador da improvisação, ele estabeleceu uma linguagem para o jazz, criando uma nova concepção estética para o solista.

A série de discos do Hot Five abrigou algumas faixas pioneiras, entre elas "Got Bucket Blues", "Cornet Shop Suey", "Potato Head Blues" e a obra-prima "Struttin' With Some Barbecue", gravações essenciais sublimando o estilo tradicional New Orleans com total harmonia entre os instrumentos de sopro. Louis assumia transcendental importância como inovador do estilo, derrubando as barreiras do "impossível" para a época. Acidentalmente, em "Herbie Jeebies", ele criou o scat vocal, uma maneira de cantar pronunciando sílabas ininteligíveis em vez de palavras, recurso imitado à exaustão; no meio da gravação, caiu ao chão o papel com a letra da música e, para não interromper a gravação, Louis prosseguiu cantarolando frases improvisadas na hora. A série com o Hot Seven foi ainda mais prolífica, com Louis extravasando a harmonia das formas melódicas nos seus solos, coadjuvado brilhantemente pelo pianista Earl Hines, cujo estilo fundamentado no de Armstrong foi batizado de trumpet-piano style. As obras-primas surgiram em cascata: entre outras,"Fireworks", " Skip the Gutter", "Weather Bird" (um dueto com Hines) e a sublime "West End Blues", considerada por muitos como a suprema gravação de Armstrong. Daí em diante, a carreira de Satchmo foi uma sucessão de êxitos. Liderou as orquestras de Luis Russell e Les Hite, além das suas próprias, e deu início a turnês no exterior, atuando na França, Inglaterra e Dinamarca.

Seu talento despertou o interesse dos produtores de Hollywood, aparecendo em dezenas de filmes como "Artistas e Modelos", "Uma Cabana No Céu", "New Orleans", "A Canção Prometida" e "Alta Sociedade". Armstrong liderou várias big bands até 1947, quando organizou seu conjunto All Stars, no qual atuaram, entre outros, Jack Teagarden e Trummy Young (trombone), Barney Bigard e Edmond Hall (clarinete), Earl Hines e Billy Kyle (piano) Arvell Shaw (baixo), Sidney Cattlet, Cozy Cole e Barrett Deems (bateria). Seu primeiro All Stars foi a grande atração do Festival de Jazz de Nice, em 1948, o primeiro evento do gênero em todo o mundo.

A partir dos anos 50, ele correu o mundo como embaixador musical do Departamento de Estado Americano. Nessa condição, veio ao Brasil em 1957, tocando no Rio e em São Paulo. Sua vida foi ponteada de passagens pitorescas devido ao seu grande senso de humor. Alegre, perspicaz e impagável, sempre tinha uma piada na ponta da língua para divertir os que estavam à sua volta. Uma das suas histórias mais conhecidas aconteceu em 1931. Contratado pela gravadora Okeh, gravou um disco vocal com pseudômino para outro selo. Furioso, o presidente da Okeh chamou-o ao seu escritório. Sem saber do que se tratava, Louis sentou-se na sala do chefe e este, sem dizer palavra, acionou uma vitrola, ouvindo-se o disco que gravara para o outro selo. No fim da gravação, o presidente perguntou-lhe:

- Louis, por acaso sabe quem está cantando ?

Impassível, ele responde:

- Não sei, mas prometo que não farei mais isso.

Nas últimos anos de vida, Armstrong atuou prolificamente, sempre com sucesso. Ele desbancou os Beatles na parada de sucessos com a gravação de "Hello Dolly", em 1963. Outro grande sucesso foi sua versão de "What A Wonderful World", de 1970, quando os médicos já o haviam proibido de tocar trompete.

Ele sofreu um colapso cardíaco em março de 1971 e, em 6 de julho, faleceu durante o sono, em sua residência. Com ele encerrava-se um capítulo de ouro da história do jazz.

Sua obra riquíssima e inventivida, seu gênio de improvisador, fabuloso comando instrumental e incomparável sensibilidade abriu caminhos para centenas de músicos e cantores, elevando o jazz ao status de pura arte musical.

Em 1974, o então prefeito de Nova Orleans, John Lindsay, ao inaugurar a Rua Louis Armstrong, definiu a trajetória do homenageado::" Louis Armstrong nasceu numa cabana, mas chegou ao topo do mundo e ali permaneceu graças ao seu talento, honestidade e dedicação".



To Next Page of Newspaper Articles/Columns/Features

Back to Index