

Newspaper Articles written by Arnaldo
This section will feature both online and in-print articles that Arnaldo has written in his career.
From 1979 to 2008, Arnaldo has written a total of 2,636 such
articles. This is in addition to contributing to other
publications around the world, most notably: Keyboard Magazine
(U.S.A.), "Cuadernos de Jazz" (Spain), and "Swing Journal"
(Japan). He also maintains a weekly jazz column in the Brazilian
daily newspaper "Tribuna da Imprensa" since 1979.
From: Tribuna da imprensa online
Rio de janeiro, segunda-feira, 03 de novembro de 2008:
"O fruto proibido de Bill Evans & Claus Ogerman
Mais raro disco do pianista é relançado pela primeira vez em CD"
Arnaldo DeSouteiro
Um dos discos mais controvertidos e mais
procurados na história da música - por nunca ter sido
previamente reeditado em CD e nem mesmo em LP desde o lançamento
original em 1963 - finalmente aparece em CD. Com edição
quase simultânea no Japão (em "miniature LP sleeve"), na
Europa e nos Estados Unidos, desponta como principal
atração da série "Originals", supervisionada pelo
produtor Harry Weinger para o selo Verve. A capa, em formato digipack
nas edições americana e européia, reproduz a arte
gráfica original, mantendo o texto utilizado na contracapa da
prensagem em vinil.
É também um disco de título muito extenso,
impresso apenas na contracapa: "Bill Evans his piano and orchestra play
theme from The V.I.P.s and other great songs". Tornou-se o ítem
mais raro na discografia de Evans, simplesmente porque o artista jamais
autorizou sua reedição enquanto vivia. E, mesmo
após sua morte, a Universal respeitou a vontade do pianista e de
seu colaborador Claus Ogerman, responsável pelos arranjos e
regências. "É uma obra menor no legado de Evans, e eu
também não acho que as orquestrações
estejam dentro do meu padrão de qualidade", comenta, sem meias
palavras, o genial Claus.
Na verdade, Ogerman foi quem permaneceu intercedendo para que o LP
nunca fosse relançado. Vetou a inclusão de qualquer das
faixas em sua própria coleção retrospectiva de
2002, "The man behind the music" (59 faixas em quatro CDs), assim como
na supercaixa "The complete Bill Evans on Verve" (269 faixas reunidas
em 18 CDs), lançada em 1997 incluindo até mesmo
várias gravações inéditas, para os selos
Verve e MGM, mas nem uma música sequer do tal "maldito"
álbum de 1963. Logo virou "collector's item", disputado a peso
de ouro nos melhores sebos do mundo.
Resultado controverso
"Quando eu tocava no João Sebastião Bar, em São
Paulo, em meados dos anos 60, tudo quanto era pianista vivia catando
este disco", relembra José Roberto Bertrami, líder do
grupo Azymuth. "Um dia, o Zé Bicão, lendário
baixista e pianista, conseguiu ouvir o disco na casa de um
colecionador. Sumiu três dias e reapareceu com uma cara
tristíssima, deprimido, dizendo que tinha ficado decepcionado.
Aí é que a turma ficou ainda mais grilada porque, pra
gente, era impossível o Bill Evans fazer um disco ruim. Como
não tinha fita cassete naquela época, não rolava
cópia e a curiosidade aumentou ainda mais. Até hoje eu
ainda não ouvi este disco!", diverte-se.
Eu mesmo somente consegui o álbum por 300 dólares na
Rose's Second Hand, em Manhattan, em 1987, e depois não resisti
a pagar 50 mil ienes por um segundo exemplar na Disk Union de Tokyo, em
1996. Apesar de agora contar com o CD na minha coleção,
preservo os dois vinis como tesouros.
Mais importante do que discutir a qualidade artística do
trabalho é esclarecer sua condição como um disco
ímpar na carreira de Bill, sua única incursão na
área easy-listening, levando-o a disputar espaço no
terreno por onde trafegavam pianistas "pop" como Peter Nero e o duo
Ferrante & Teicher. A idéia veio do produtor Creed Taylor,
que volta e meia usava, nos anos 60, o selo MGM para lançar
trabalhos distantes da estética essencialmente jazzística
do selo Verve.
Aventura bizarra
Ninguém pense, porém, que Evans ou Ogerman foram
"obrigados" a gravar o álbum. "Ambos se empenharam muito, e
Evans parecia estar se divertindo bastante no estúdio", garante
Taylor, empregando a palavra "aventura" - também usada no texto
original de contracapa, reproduzido no CD - para definir a empreitada.
O alemão Claus, radicado em New York desde 1959, ainda
não havia se consagrado no mundo do jazz, mas já
possuía larga experiência na área pop. "Ele tinha
trabalhado com o grupo The Drifters e com as cantoras Connie Francis e
Lesley Gore, inclusive no primeiro sucesso da carreira de Lesley, "It's
my party", que chegou ao primeiro lugar no hit-parade", lembra Taylor.
Tampouco o disco resultou em retumbante fracasso comercial, ao
contrário do apregoado pelos puristas, embora tenha ficado longe
de alcançar o sucesso pretendido. Segundo o produtor,
confirmando a informação do texto de
apresentação da época, a bisonha faixa "Sweet
september", de Bill McGuffie, foi concebida para ser originalmente
lançada apenas como um compacto, "mas vendeu tão bem que
decidimos incorporá-la ao LP".
Na verdade, "Sweet september" tocou mais nas rádios do que o
lado A do single, o igualmente kitsch "Theme from the V.I.P.s"
(número de catálogo VS 514), mas Creed nem se lembrava.
No rótulo do compacto, lançado, pelo selo Verve,
três meses antes do LP, o nome do arranjador ainda aparecia
grafado como Klaus Ogerman, sendo depois "americanizado" para Claus na
contracapa do álbum editado com a grife MGM.
Pouco antes, mais precisamente em maio de 1963, um outro compacto
(também de 45 rotações, nº de catálogo
VS 511) chegou às lojas, trazendo "55 days at Peking" no lado A
e "On Broadway" no lado B. Ninguém, nem mesmo Creed Taylor ou
Claus Ogerman, sabe explicar o motivo da faixa "55 days" - tema de
Dimitri Tiomkin para o filme de Nicholas Ray estrelado em 1963 por
Charlton Heston, Ava Gardner e David Niven - não ter entrado no
LP nem ter sido adicionada agora ao CD, para que pudéssemos ter,
finalmente, aquelas sessões em versão integral.
Entretanto, "55 days" chegou a ser incluída em um confuso
LP-compilação batizado "Twilight of honor", também
lançado pela MGM, misturando temas de John Green para o filme
homônimo com músicas das trilhas de "Murder at the
gallop", "The haunting", "Ride the high country", "Hud" e até
mesmo "Black Orpheus".
Piano de elevador
Bill & Claus criaram juntos "Hollywood", sinuosa faixa de abertura
do lado B, na qual Bill se permite alçar vôo, dando
rasantes jazzísticos sobre a levada 4/4 de Grady Tate nas
vassourinhas. Não por acaso, o tema de Lyn Murray para "Mr.
Novak" acabou escolhido para faixa de abertura, porque o seriado,
estrelado por James Franciscus, era produzido pela MGM para a rede NBC.
Por sua vez, a faixa de encerramento, "On Broadway", escrita a oito
mãos por Jerry Leiber, Mike Stoller, Barry Mann & Cynthia
Weil, havia acabado de chegar ao nono lugar na parada pop da
"Billboard" naquele ano de 1963, via The Drifters, e voltaria a
estourar na voz de George Benson em 1977, alcançando um sucesso
ainda maior ao chegar ao sétimo lugar na Billboard, como
carro-chefe do álbum-duplo "Weekend in LA".
No recheio, belas composições em clima de "muzak" ou,
como diziam antigamente lá no Brasil, "música de
elevador". Em sua maioria, temas extraídos de trilhas sonoras
para cinema. A faixa inspiradora do título do disco, composta
por Miklos Rozsa, veio do filme "The V.I.P.s", estrelado por Elizabeth
Taylor. "Laura", de David Raksin, dispensa apresentações.
Foi gravada por vários jazzmen, inclusive Dexter Gordon (no
suntuoso "Sophisticated giant") e, segundo o saudoso Maestro Gaya,
influenciou tremendamente a geração da bossa nova. "More"
(de Riz Ortolani), popularizada pelo filme "Mondo cane", seria depois
sugerida por Creed para o repertório de Stanley Turrentine em
"The sugar man".
Também partiu de Creed a idéia da
regravação de "Walk on the wild side" (Elmer Bernstein),
transformada em jazz hit pelo produtor através do arranjo de
Oliver Nelson para Jimmy Smith, em 1962, no disco "Bashin'", que chegou
ao Top 10 da parada pop da "Billboard". Evans pega bem mais leve do que
Smith, mas não resiste a algumas salutares entortadas
jazzísticas, assim como em "The man with the golden arm", outro
vigoroso tema de Elmer, autor também de "The caretakers",
estrelado por Joan Crawford & Robert Stack.
Mais conhecida, a canção principal de "The days of wine
and roses" ("Vício maldito"), pela qual Henry Mancini faturou o
Oscar em 1962 embalando o drama vivido pelos personagens de Jack Lemmon
& Lee Remick, tem sua sofisticada atmosfera
melódico-harmônica preservada. Bill também
mostra-se respeitoso na abordagem de "On Green Dolphin Street". Caso
raro de canção (criada por Bronislaw Kaper,
ídolo-mor de João Donato) que ganhou vida própria
enquanto o filme caiu no esquecimento, assim como aconteceu com "The
gentle rain", de Luiz Bonfá.
Mistério e curiosidade
Os nomes dos músicos não constavam do LP e não
constam do CD. Mas o fantástico website com a mais completa
discografia de Claus Ogerman, organizado pela pesquisadora Barbara
"B.J." Major, credita o fabuloso violinista Harry Lookofsky como spalla
da seção de cordas, Carl Lynch como guitarrista e Milt
Hinton e Whitey Mitchell como contrabaixistas.
Por outras fontes, consegui identificar James Buffington & Ray
Alonge nas trompas, Grady Tate na bateria (mandando ver na
pulsação de jazz-waltz em 6/8 de "The caretakers") e Phil
Kraus ataca na percussão (castanholas em "Mr. Novak", guizos em
"caretakers", vibrafone em "Hollywood"), revezando com George Devens
(triângulo em "More" e "Days of wine and roses", bongôs em
"On Green Dolphin Street").
Um insosso coro feminino reforça o clima épico-cafona de
"Theme from the V.I.P.s" e soma-se aos violinos e trompetes dominantes
em "On Broadway", onde Ogerman ensaia um groovyzinho negróide.
Por fim, vale dizer que, ao perder a chance de colocar "55 days at
Peking" como bonus-track nesta reedição, a Verve
transformou aqueles 2 minutos e 36 segundos nos mais cobiçados
pelos colecionadores que sonham em ver a obra de Bill Evans, o mais
influente pianista da história do jazz, inteiramente
disponível em CD.
Na engenharia de som, dois craques: Bob Simpson e o hoje consagrado
produtor Phil Ramone, também convocado por Creed Taylor para
gravar "Getz/Gilberto" (quando Phil ganhou seu primeiro Grammy) e "Jazz
samba encore!" de Stan Getz & Luiz Bonfá. Aqui, a dupla
captou o pianinho suave de Bill e os arranjos bem comportados, nada
ousados, de Claus. Exatamente o oposto do que viria a ocorrer nos dois
extraordinários álbuns gravados posteriormente pelos dois
mestres: "Bill Evans trio with symphony orchestra" (produzido por Creed
Taylor para a Verve em 1965) e "Symbiosis" (lançado pela MPS em
1974), obras-primas indispensáveis em uma discoteca
básica de jazz. "The V.I.P.s" merece ser ouvido apenas como
curiosidade. Nem que seja levando a sério somente "Hollywood", a
introdução de "Laura" e os três temas de Elmer
Bernstein. Sem preconceito.
* * *
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